Land of Contrasts
Volumoso e desgraçado lugar comum em relatos/literatura de viagem... (ir ao link de cima)
SALOON from Tom Pietrasik on Vimeo.
Sabes, Lisboa é daqueles que aqui nasceram e que aqui abriram (espreguiçaram?) pela primeira vez os braços (as ruas?) ao sol. Daqueles que aprenderam o que era um cubo na calçada, mesmo antes dos cubos com que as crianças de outras cidades jogam desde cedo; daqueles que descobriram que a electricidade é amarela e leva gente dentro, por caminhos estreitos e certos mas quase nunca a direito; daqueles que nunca se deixaram enganar pelo azul dos lápis de cor porque sempre souberam que ele não é azul de verdade mas sim uma imitação do céu que mais ao fundo, depois da janela, corre no rio que cai no mar. E daqueles que escolheram os rebocadores como o seu barco preferido, ignorando todos os navios, e deram nomes aos navegadores que ainda hoje só não se desequilibram e caem ao Tejo por um triz feito de pedra.
Sabes, Lisboa é daqueles que um dia vão ensinar que tudo isto é assim porque sempre foi, com a razão de uma ciência exacta, com a certeza de quem aprendeu a fazer contas no quadriculado dos azulejos que cobre os prédios e assim poupou muitas folhas de muitos cadernos para fazer aviões, que quase voaram sobre os pombos, e barcos, que quase atravessaram em segurança lagos pequenos de jardins médios com árvores grandes.
As asas dos aviões pareciam-lhe grandes e pesadas; as dos morcegos do carnaval sabia que não funcionavam, já tinha experimentado várias vezes mas o chão tinha ganho sempre e as asas das chávenas pareciam frágeis para aguentarem com todo o seu peso, mais agressivo do que o chá a ferver. Era difícil para ele viver com a frustração que só têm aqueles que sabem que nunca vão tirar os pés do chão. Era difícil também (mas muito menos) olhar um pássaro de frente para que ele percebesse o seu desgosto e o ensinasse a ganhar asas. Franzia os olhos e depois baixava enquanto os pássaros tremiam nervosamente a cabeça e, como se nada funcionasse, ainda depois resolveu que se ele não podia andar no ar eles não podiam voar no chão. E pregou-os ao céu. Eles continuaram a bater as asas sem sair do lugar e foi assim que começou o vento em Budapeste, ou noutro sítio qualquer
Se for no meus anos, em fevereiro, sei que vai estar frio. Provavelmente chuva e com alguma sorte a neve vai cair pelo caminho, enchendo um e outro carril que talvez me façam deslizar com mais cuidado durante mais de 4 horas de viagem, de Praga a Berlim.
O comboio estará cheio de jovens que viajam de mochila às costas com o tempo que só têm aqueles que ainda não decidiram passar a vida a perdê-lo sempre no mesmo sítio, sentados atrás de um computador. Eles viajam, vão de um lugar para o outro e não olham para trás. Acumulam amigos, conhecidos, fotografias e as veias dos braços tapados com camisolas e casacos fazem os caminhos de ferro da Europa em tons de azul. Isto só acontece a quem pode estar sempre em circulação, sem ter de parar a vida para ter a vida que os outros esperam que se tenha.
São loiros, ruivos ou morenos. Mas são todos europeus a viajarem dentro de si, talvez só um bocadinho fora de si porque alargam as fronteiras do seu país.
- Há quanto tempo viajas? - pergunto eu a um rapaz de 19 anos que escreve e desenha num caderno de capa preta que parece um canudo, provavelmente por andar sempre enrolado no bolso do casaco estilo militar.
- Comecei em Viena, sou de lá.
- E vais até onde?
- Não tenho caminho marcado. Vou andando. Por exemplo, agora vou para Berlim porque conheci uns alemães em Praga e combinámos encontrar-nos lá.
- Quanto tempo tens de férias?
- 1 ano. Decidi parar de estudar para viajar antes de ir para a faculdade. Vou fazendo uns trabalhos aqui e ali quando o dinheiro ameaça acabar. Normalmente trabalho em restaurantes, sirvo às mesas, mas também já trabalhei como ajudante de barbeiro. Porque é que viajas sem nada?
- Fiquei sem mochila na estação de Praga, deixei-a num banco enquanto fui à casa de banho e quando voltei alguém já a tinha encontrado e gostado dela. Só com os bilhetes, o porta moedas e amáquina de fotografias que estavam no bolso do casaco. E estou a achar melhor assim.
Nos comboios da Índia é difícil conversar com que vai ao nosso lado. São quase todos indianos e viajam totalmente dentro de si, cada um com o seu dialecto, por um país interminável tal como a capacidade de cada carruagem. Foi em abril deste ano. Depois da espera numa estação onde não havia bancos e onde havia crianças que me queriam engraxar as havaianas entrei na minha carruagem. E tentei sair imediatamente. Mas a mochila impediu-me de dar a volta para trás no corredor estreito demais. Parei. Dos dois lados da carruagem havia camas de 3 andares. Eles estavam sentados e o branco dos olhos balançava ao ritmo dos pés pendurados. A fila amontoava-se atrás de mim. Avancei. Sobre a minha cama havia mais duas, logo ao lado mais 3 e assim vezes centenas de camas pelo comboio. Saí de lá com uma noção diferente de espaço, uma noção diferente de invasão. E enquanto a ventoinha rodava no tecto, sobre todas as camas, vi que, apesar do calor e da multidão, o ar encontrava sempre espaço para circular. Foi então que decidi não parar e talvez seja uma multidão de indianos que me empurra para um comboio em direcção a Berlim.
Das vantagens e desvantagens, sabia que o pior era o não existir. Naquele comboio, que partira da estação de onde queria sair, para um sítio que não conhecia, não existia. Ninguém sabia que estava ali e ninguém se lembraria que tinha ali estado.
Na última paragem teve de sair. Trazia uma mala, pequena e leve, arrastada pela mão, puxada quando se prendia nos sobressaltos do chão, e com a outra mão, apertava um pouco mais a gola do casaco sem que isso a protegesse como esperava. Andou pela gare até perto da saída: não queria sair; não sabia que passos dar e em que direcção. Uma quantidade razoável de pessoas entravam e saiam, numa onda de um mar que se cruzava com a corrente de um rio. Falavam uma língua estranha, sabiam a direcção que tinham de tomar, directas, a direito. Só ela estava parada, no que podia ser o centro da estação, tapado por gente cruzada – o centro de um tornado de carne e murmúrios. Teve vontade de chorar, parada, com a sua mala parada em pé junto das pernas. Apertava a gola e segurava as lágrimas até conseguir chegar a algum lugar. Rodava a cintura e olhava por cima das cabeças todas – uma dificuldade -, uma tentativa difícil porque era pequena e todos lhe pareciam viver uns bons dez centímetros acima dela. Mais acima ainda, via o relógio de ponteiros, enorme, pivot de um salão onde podia se podia correr em carrinhos de rolamentos se se quisesse. Em breve seria noite. Onde estava as luzes amarelas não terminariam o dia e também por isso não queria sair. Rodou no mesmo lugar, procurava qualquer coisa, familiar ou que pudesse entender. Porque tinha vindo até aqui? Arrependia-se sempre antes de não se voltar a arrepender. Porque não tinha vindo com alguém que lhe mostrasse o caminho? Tinha tentado há uns dias mas percebeu que não era a altura ideal para quem perguntou. Para além disso, a máxima que mais se lembra de repetir, umas vezes contente outras para justificar a tristeza, era que amigo não empata amigo e até, numa escala maior mas com a mesma verdade, o vive e deixa viver. Acreditava tanto nisso que nunca chegou a aprender a insistir. Mesmo antes até antes de chegar a pensar em insistir fosse no que fosse, o primeiro pedido também teve de o aprender. Cresceu a esperar que quando e o que fosse possível, talvez pudesse ser. Não a fez sentir menos gente ou pelo menos pensava assim. Mas fazia-a sentir que podia, em várias ocasiões, fazer um pouco mais, que merecia fazer, era-lhe permitido. Aprendeu-o muito mais tarde que a infância, o que se lhe afigurava uma essencialidade. Às vezes, menos a cada consciência maior que ia tendo, dava por si a desculpar-se de estar a fazer o primeiro pedido e, desembrulhada em perdões se insistia. Nada disso invalidava o acreditar piamente que amigo não empata amigo e que se vive deixando também viver.
Tinha de encontrar onde passar a noite. Tinha de sair dali, fazer pelo menos de conta que sabia para onde ia. Andar com passadas com direcção e directa a alguma coisa. No balcão das informações (essencialidades básicas em qualquer destino de cidade europeia e universalmente sinalizados) encontrou quase tudo em quase todas as línguas e em quase todos os formatos. Nem teria de falar com a senhora de farda mas achou que devia – ia “roubar-lhe” várias brochuras à descarada. Percebeu, por gestos e em várias línguas, num dialecto inventado para turistas de países longínquos, que podia chegar ao centro de autocarro, metro, táxi; tudo menos a pé. Teve a gentileza, profissional ou piedosa, de lhe indicar dois sítios onde ficaria bem por um preço justo. Sentiu-se melhor. Tinha, por agora, direcção a dar ao caminho, entendeu e fez-se entender numa linguagem sem gramática ou sintaxe e, por hoje, sabia que iria encontrar um destino.
Saiu da estação e voltou-se para lhe ver a fachada: Berlin Hauptbahnhof.
HÁBITOS CONTRA A CORRENTE
O cais estava a preto e branco. Visto de uma nuvem parecia coberto de pedras de calçada, visto das ondas do rio parecia coberto por peças de um jogo de damas sem regras. De perto descobriam-se centenas de freiras amontoadas em lágrimas. Olhavam para um barco pronto a partir e os seus olhos, a ondular, perguntavam se, todas juntas, teriam força para ser âncora.
Com as botas pretas poisadas no cais e o fato azul e branco suspenso sobre a água, um marinheiro fazia os últimos preparativos para que a viagem fosse de paz. Com uma mão apoiava-se na proa e com a outra segurava uma cruz feita de cordas com que batia 3 vezes no casco. Uma pelo Pai, outra pelo Filho e outra pelo Espírito Santo - enquanto se interrogava do porquê de um gesto habitualmente partido em quatro para representar uma unidade sempre partida em três. Desejou compaixão cristã a bordo e que fossem capazes de andar sobre as águas como Jesus. Era tudo o que a sua fé da escola primária com catequese obrigatória lhe permitia pedir a Deus no céu e era muito mais do que aquilo que a sua vida sempre no mar lhe permitia pedir a quem quer que fosse na terra.
No convés, dezenas de padres arregaçavam as mangas da batina, prendendo-as entre o cotovelo e os bícepes adormecidos, alargavam o colarinho romano respirando com uma liberdade que já não era sua e preparavam-se para dar início aos trabalhos a bordo. Olharam para as velas caídas no chão, ajoelharam-se perto delas mas não lhes tocaram e, sem se mexerem, içaram as almas enquanto esperavam que o barco partisse. Sem distinguirem a proa da popa o destino era o que Deus quisesse.
As freiras no cais choravam e benziam-se. Sabiam que, mesmo sem terem sido noivas, seriam viúvas dos homens e de Deus ao mesmo tempo. Iam deixar de ter quem as salvasse nos arranjos diários do convento e do espírito – e principalmente das rasteiras do coração e do corpo a que a fé as obrigava a chamar provações da alma. Os seus pensamentos tombavam de um lado para o outro da cabeça ao ritmo da mão que dançava triste com o lenço branco. Era o adeus de Deus.
Mas o barco não partia. As lágrimas delas demoravam mais a cair e já não deslizavam pela cara, prendiam-se no rasto das anteriores e o desgosto tornava-se peganhento. Tudo parecia suspenso, à espera de um milagre, enquanto do convés mergulhavam conversas soltas:
- Tenho fé que o vento vai mudar.
- Ainda nem saímos do rio e eu já só penso em Moisés para separar os mares.
Os padres sabiam que Deus ia olhar por eles na viagem e isso abrandava o sopro do medo. Mas as freiras eram mais, sofriam mais e rezavam com mais força. E assim o Pai pregou uma partida aos filhos não os deixando partir. Mandou descer todo o nevoeiro sobre o rio e soou a sirene. Os padres abandonaram o barco, as freiras as lágrimas e o marinheiro há muito que tinha abandonado o cais levando a cruz – a corda ainda podia ser reutilizada - mas deixando lá Deus. Talvez fosse a pressa de chegar ao vazio que tinha pela frente que o impediu de perceber o que deixava para trás. Ou talvez fosse só porque, pelas leis dos homens, Ele não cabia no saco das riscas azuis e brancas. E então, como se não O vissem nem sentissem por perto, todas as feiras puseram baton.
texto infantil // ponto de partida: a Emilia muda de escola, não gosta e depois descobre que afinal a mudança foi boa.
A escola da Emilia tem um grande pátio com um campo que às vezes é de futebol, às vezes de basket e às vezes é só um sítio para conversar a apanhar sol. A escola da Emilia tem um grande muro onde todos os miúdos se sentam em cima e ficam a abanar os pés para verem as cores das meias uns dos outros ( e também quem pisou pastilha elástica). A escola da Emilia tem os seus melhores amigos: a Rosa que tem tranças ruivas e fala muito depressa, o Zé que tem aparelho nos dentes e tropeça nas palavras e a Maria que parece não ter nada de especial mas que vive na porta ao lado da Emília e acabam por andar sempre juntas porque a proximidade é vizinha da amizade. A escola da Emilia tem tudo o que ela imaginou numa escola. Ou melhor, tinha tudo porque já não é a escola da Emilia.
O pai da Emilia é engenheiro. Constrói pontes que atravessam os rios. Como naquela cidade o rio era curto e estreito e já era atravessado por 3 pontes - uma construída pelo bisavô da Emília, outra pelo avô e outra pelo pai - não havia mais espaço para mais pontes e o pai da Emília decidiu que deviam mudar de morada.
- Para onde? perguntou ela.
- Para uma cidade que tenha mais rios e que por isso precise de mais pontes - respondeu o pai.
A Emilia pensou, pensou e quando achou que tinha pensado tudo pensou ainda mais um bocado. E perguntou outra vez:
- Para onde?
- Tinha pensado numa ilha para fazer muitas pontes que a ligassem a outras ilhas e talvez a um continente. Mas depois tive uma ideia melhor e já sei para onde vamos.
- Para onde? voltou a perguntar a Emilia já a franzir a testa que estava quase sempre tapada pela sua franja com caracóis castanhos escuros.
- Vamos para Veneza - disse o pai enquanto se levantava do sofá.- Vamos para Veneza agora mesmo!
O pai agarrou numa mala e depois noutra e noutra e pôs tudo lá dentro. As malas da Emília continuavam vazias para quem quisesse ver. Só estavam cheias de dúvidas que não se viam mas que ela gritava para o quarto do pai:
- Sabes que eu não falo italiano?
- A Maria e a porta ao lado também vão para Veneza?
- E o Zé e a Rosa?
- Achas que lá também há sol no campo que às vezes é de futebol, às vezes de basket e às vezes é só um sítio para conversar?
- Se a mãe fosse viva também íamos viver para lá?
O pai apareceu no quarto da Emilia. Ela estava sentada no chão a olhar para as malas vazias, quase tão vazias quanto ela. O pai sentou-se no chão e disse:
- Vou responder a cada uma das tuas perguntas: Sei que não falas italiano e eu também não mas aprendemos num instante - sabemos dizer pizza e isso já é meio caminho andado para sermos felizes!
A Emilia piscou o olho a responder ao piscar de olho do pai, como fazia sempre, apesar de ainda não estar nada convencida. O pai continuou:
- A Maria e a sua porta ficam cá. Em Veneza encontrarás outras Marias e outras portas ao lado sem nunca te esqueceres desta. Mandas cartas, telefonas e ela até nos pode ir lá visitar! O mesmo acontece com o Zé e a Rosa.
A Emília estava muda de olhos muito abertos à espera que o pai continuasse. E o pai continuou:
- Tenho a certeza que vais ter dias de sol no campo de desporto da escola e dias de chuva também mas o mais importante é que vais ter amigos novos e é sempre bom ter mais e mais amigos, não é?
Agora a Emília teve de concordar. Imaginou que ia ver meias de cores nunca antes vistas penduradas nas pernas que abanavam num muro da escola. Faltava a resposta mais difícil à pergunta mais difícil.
- Se a tua mãe ainda fosse viva íamos os 3 porque as pontes mais importantes que eu posso construir são entre nós, para estarmos sempre juntos. Não posso fazer uma ponte até ao céu mas sei que a tua mãe lá de cima vem connosco até Veneza ou até bem mais longe.
A Emilia levantou-se, abraçou o pai e pôs toda a sua roupa e livros na mala. Hoje em dia fala tão bem italiano como português, tem vários amigos italianos e um namorado também, a Rosa, o Zé e a Maria estão lá a fazer Erasmus e o pai da Emília é responsável pela modernização das pontes da cidade.
Pelas pontes do pai, a Emília percebeu a importância de ligar lugares e pessoas, o aqui e o ali, o tu e o eu, e decidiu ser escritora. Era esta a sua maneira de ligar a realidade e o sonho, as palavras e os desenhos, as ideias e as pessoas. Porque cada um de nós constrói pontes à sua maneira, as pontes da Emilia são feitas de letras como estas.
O pai da Emilia é engenheiro. Constrói pontes que atravessam os rios. Como naquela cidade o rio era curto e estreito e já era atravessado por 3 pontes - uma construída pelo bisavô da Emília, outra pelo avô e outra pelo pai - não havia mais espaço para mais pontes e o pai da Emília decidiu que deviam mudar de morada.
- Para onde? perguntou ela.
- Para uma cidade que tenha mais rios e que por isso precise de mais pontes - respondeu o pai.
A Emilia pensou, pensou e quando achou que tinha pensado tudo pensou ainda mais um bocado. E perguntou outra vez:
- Para onde?
- Tinha pensado numa ilha para fazer muitas pontes que a ligassem a outras ilhas e talvez a um continente. Mas depois tive uma ideia melhor e já sei para onde vamos.
- Para onde? voltou a perguntar a Emilia já a franzir a testa que estava quase sempre tapada pela sua franja com caracóis castanhos escuros.
- Vamos para Veneza - disse o pai enquanto se levantava do sofá.- Vamos para Veneza agora mesmo!
O pai agarrou numa mala e depois noutra e noutra e pôs tudo lá dentro. As malas da Emília continuavam vazias para quem quisesse ver. Só estavam cheias de dúvidas que não se viam mas que ela gritava para o quarto do pai:
- Sabes que eu não falo italiano?
- A Maria e a porta ao lado também vão para Veneza?
- E o Zé e a Rosa?
- Achas que lá também há sol no campo que às vezes é de futebol, às vezes de basket e às vezes é só um sítio para conversar?
- Se a mãe fosse viva também íamos viver para lá?
O pai apareceu no quarto da Emilia. Ela estava sentada no chão a olhar para as malas vazias, quase tão vazias quanto ela. O pai sentou-se no chão e disse:
- Vou responder a cada uma das tuas perguntas: Sei que não falas italiano e eu também não mas aprendemos num instante - sabemos dizer pizza e isso já é meio caminho andado para sermos felizes!
A Emilia piscou o olho a responder ao piscar de olho do pai, como fazia sempre, apesar de ainda não estar nada convencida. O pai continuou:
- A Maria e a sua porta ficam cá. Em Veneza encontrarás outras Marias e outras portas ao lado sem nunca te esqueceres desta. Mandas cartas, telefonas e ela até nos pode ir lá visitar! O mesmo acontece com o Zé e a Rosa.
A Emília estava muda de olhos muito abertos à espera que o pai continuasse. E o pai continuou:
- Tenho a certeza que vais ter dias de sol no campo de desporto da escola e dias de chuva também mas o mais importante é que vais ter amigos novos e é sempre bom ter mais e mais amigos, não é?
Agora a Emília teve de concordar. Imaginou que ia ver meias de cores nunca antes vistas penduradas nas pernas que abanavam num muro da escola. Faltava a resposta mais difícil à pergunta mais difícil.
- Se a tua mãe ainda fosse viva íamos os 3 porque as pontes mais importantes que eu posso construir são entre nós, para estarmos sempre juntos. Não posso fazer uma ponte até ao céu mas sei que a tua mãe lá de cima vem connosco até Veneza ou até bem mais longe.
A Emilia levantou-se, abraçou o pai e pôs toda a sua roupa e livros na mala. Hoje em dia fala tão bem italiano como português, tem vários amigos italianos e um namorado também, a Rosa, o Zé e a Maria estão lá a fazer Erasmus e o pai da Emília é responsável pela modernização das pontes da cidade.
Pelas pontes do pai, a Emília percebeu a importância de ligar lugares e pessoas, o aqui e o ali, o tu e o eu, e decidiu ser escritora. Era esta a sua maneira de ligar a realidade e o sonho, as palavras e os desenhos, as ideias e as pessoas. Porque cada um de nós constrói pontes à sua maneira, as pontes da Emilia são feitas de letras como estas.
A Verónica sabia tudo sobre comboios. Sabia exactamente onde começavam as linhas que iam dar a fora daqui e a que horas partiam os comboios para muito longe. Todos os dias enchia e esvaziava a mochila como se criasse a companhia perfeita para partir. Depois olhava-se ao espelho e percebia que a mochila de inter-rail do seu irmão mais velho continuava a ser maior do que ela. E voltava a guardá-la na parte de cima do armário do corredor.
Aos 11 anos e meio, a Verónica sabia muito bem o que queria da vida. Ser turista. E se não podia sair do país nem da cidade era turista em Lisboa. Tirava fotografias junto à torre de belém, passava os sábados no autocarro vermelho que leva e traz turistas, comia croissants na Benard e fingia que bebia cafés na Brasileira.
Num dos seus dias de passeio encontrou um rapaz muito engraçado. Não era bonito nem contava anedotas mas era engraçado porque tinha comido os P e não conseguia fazê-los sair outra vez pela boca: nem com um susto, como a Verónica tentou várias vezes.
- Sabes o que é que eu almocei hoje? Bifes daquele animal cor de rosa que vive no meio da lama!
- Bifes de porco, disse a Verónica.
Ele agradeceu, tentou roubar o P da frase dela mas não conseguiu. Chamava-se Pedro mas como não podia dizer o P que ainda dava voltas na barriga dizia que era o João. A partir desse dia nunca mais se largaram e todos os fins de semana eram um par de turistas na sua própria cidade.
Um dia, quando passeavam perto do rio viram um casal de namorados. Eles estavam tão perto tão perto um do outro como eles nunca tinham visto. Estavam ainda mais juntos do que as pessoas no autocarro logo de manhã. E deviam ouvir mal porque falavam também com as bocas muito perto. Era o que a Verónica achava. Mas o João que era Pedro tinha outra ideia:
- Eles estão a namorar.
- Como é que sabes isso? perguntou a Verónica.
- Vamos segui-los - disse o João que era Pedro sem conseguir. - Se ele lhe der a mão, oferecer flores, usar o braço à volta daquilo que está em baixo do queixo e segura a cabeça e tiver os olhos a brilhar temos todas as coisas que os detectives têm quando querem ter a certeza de uma coisa.
- As pistas e as provas, disse a Verónica.
- Isso, disse o João que não sabia ser Pedro.
E começaram a segui-los. Pelo caminho viram pegadas gigantes nas paredes dos prédios mas isso não tinha interesse nenhum comparado com duas pessoas que se colavam e descolavam quando lhes apetecia. Quando o casal chegou à estação de comboios foi cada um para seu lado. Mas antes ela disse:
- Prometes pensar sempre em mim Paulo?
E ele respondeu:
- Prometo Palmira. Pedes o que não precisas de pedir, pequenina.
E o João que era Pedro corava. Achava que nunca ia conseguir fazer uma declaração de amor à Verónica porque isso parecia usar muitos Ps. Até que encontrou a frase certa:
- Queres namorar comigo?
A Verónica deu-lhe a mão e respondeu:
- Claro que sim.
Enquanto os dias passavam sonhavam com todos os lugares que iam visitar quando crescessem. Mas o João que era Pedro nunca se atreveu a dizer que queria muito ir à Polónia, ao Peru, à Polinésia ou à Patagónia. Mas não era preciso porque a Verónica sabia que sonhavam os dois com as mesmas coisas. Nos anos dele deu-lhe uma caixa cheia de Ps de papel e prometeu que quando fizessem a viagem era ela que ia à bilheteira e pedia o passe.
Aos 11 anos e meio, a Verónica sabia muito bem o que queria da vida. Ser turista. E se não podia sair do país nem da cidade era turista em Lisboa. Tirava fotografias junto à torre de belém, passava os sábados no autocarro vermelho que leva e traz turistas, comia croissants na Benard e fingia que bebia cafés na Brasileira.
Num dos seus dias de passeio encontrou um rapaz muito engraçado. Não era bonito nem contava anedotas mas era engraçado porque tinha comido os P e não conseguia fazê-los sair outra vez pela boca: nem com um susto, como a Verónica tentou várias vezes.
- Sabes o que é que eu almocei hoje? Bifes daquele animal cor de rosa que vive no meio da lama!
- Bifes de porco, disse a Verónica.
Ele agradeceu, tentou roubar o P da frase dela mas não conseguiu. Chamava-se Pedro mas como não podia dizer o P que ainda dava voltas na barriga dizia que era o João. A partir desse dia nunca mais se largaram e todos os fins de semana eram um par de turistas na sua própria cidade.
Um dia, quando passeavam perto do rio viram um casal de namorados. Eles estavam tão perto tão perto um do outro como eles nunca tinham visto. Estavam ainda mais juntos do que as pessoas no autocarro logo de manhã. E deviam ouvir mal porque falavam também com as bocas muito perto. Era o que a Verónica achava. Mas o João que era Pedro tinha outra ideia:
- Eles estão a namorar.
- Como é que sabes isso? perguntou a Verónica.
- Vamos segui-los - disse o João que era Pedro sem conseguir. - Se ele lhe der a mão, oferecer flores, usar o braço à volta daquilo que está em baixo do queixo e segura a cabeça e tiver os olhos a brilhar temos todas as coisas que os detectives têm quando querem ter a certeza de uma coisa.
- As pistas e as provas, disse a Verónica.
- Isso, disse o João que não sabia ser Pedro.
E começaram a segui-los. Pelo caminho viram pegadas gigantes nas paredes dos prédios mas isso não tinha interesse nenhum comparado com duas pessoas que se colavam e descolavam quando lhes apetecia. Quando o casal chegou à estação de comboios foi cada um para seu lado. Mas antes ela disse:
- Prometes pensar sempre em mim Paulo?
E ele respondeu:
- Prometo Palmira. Pedes o que não precisas de pedir, pequenina.
E o João que era Pedro corava. Achava que nunca ia conseguir fazer uma declaração de amor à Verónica porque isso parecia usar muitos Ps. Até que encontrou a frase certa:
- Queres namorar comigo?
A Verónica deu-lhe a mão e respondeu:
- Claro que sim.
Enquanto os dias passavam sonhavam com todos os lugares que iam visitar quando crescessem. Mas o João que era Pedro nunca se atreveu a dizer que queria muito ir à Polónia, ao Peru, à Polinésia ou à Patagónia. Mas não era preciso porque a Verónica sabia que sonhavam os dois com as mesmas coisas. Nos anos dele deu-lhe uma caixa cheia de Ps de papel e prometeu que quando fizessem a viagem era ela que ia à bilheteira e pedia o passe.
A floresta acordou com o uivo a meio da noite.
Todos - a coruja e o coelho, a gazela e o tigre, a cobra e o rato, o macaco e o crocodilo -, com frio e medo, saíram para dizer: - Que barulho medonho!
Logo a seguir, ouviram outro uivo, maior, mais alto, mais assustador, que o primeiro.
O elefante, sábio da floresta, veio devagar mas vinha preocupado: é o lobo.
Agarrou-se a coruja ao coelho, a gazela ao tigre, a cobra ao rato e o macaco ao crocodilo: - Que medo! O lobo quer comer-nos durante a noite!
Todos - a coruja e o coelho, a gazela e o tigre, a cobra e o rato, o macaco e o crocodilo -, com frio e medo, saíram para dizer: - Que barulho medonho!
Logo a seguir, ouviram outro uivo, maior, mais alto, mais assustador, que o primeiro.
O elefante, sábio da floresta, veio devagar mas vinha preocupado: é o lobo.
Agarrou-se a coruja ao coelho, a gazela ao tigre, a cobra ao rato e o macaco ao crocodilo: - Que medo! O lobo quer comer-nos durante a noite!
- Está lá longe, não se preocupem. Vou falar com ele logo de manhã.
-Ufa – suspiraram e voltaram a dormir.
Passaram dias e nuvens no céu lá em cima. Durante a Primavera saltaram e dançaram; nadaram e correram o Verão e na floresta, grande como do chão ao céu, nunca mais ouviu o uivo.
- Foi-se embora o lobo Elefante? - a mãe coelho queria saber.
- Está lá longe, não te preocupes.
O Verão parecia que ia ser para sempre até que, a meio da noite, ouviram o uivo de novo.
- Que medo...! - e, de novo, iam a sair para perguntar quando viram, no meio da floresta, o lobo.
Que fazes aqui? - perguntou o elefante
Venho fazer um aviso. - disse o lobo – Estão a começar a cair as folhas das árvores, perto do rio, do outro lado da floresta. Vai começar o Outono.
Mas ainda está tanto calor e as folhas estão verdes, temos o que comer por todo o lado. - o elefante não queria acreditar.
Mas é verdade o que te digo e devem começar a guardar para o Inverno. - e foi-se embora o lobo.
Os dias passaram depressa e o Outono apareceu mais depressa ainda. Na floresta as árvores já eram amarelas, castanhas e vermelhas. No Inverno ficou toda coberta de neve e ao rato e ao macaco faltava o jantar.
- Elefante! Precisamos de comer mas morremos se formos por aí, no meio da neve!
- Porque não pensaram nisso antes, enquanto era Verão?
- Não sabíamos que ia ser Inverno tão depressa! - chorava devagarinho o rato.
E o elefante lembrou-se: - O lobo avisou...
De todos, só o lobo conseguia andar depressa e sem se cansar, pela neve fria do Inverno. De todos, era o único que sabia andar de dia e de noite sem se perder. E foi por isso que o elefante lhe foi falar.
Dois dias depois, acordaram com um banquete no meio da floresta branca e fria. O lobo, parado e sem uivar, trouxera provisões para o resto do Inverno.
Primeiro parados e depois devagar, a coruja e o coelho, a gazela e o tigre, a cobra e o rato, o macaco e o crocodilo, saudaram o lobo pelo nome, agradecendo-lhe.
Desde esse Inverno que cada uivo que ouvem é um alivio e sorriem enquanto dormem, na floresta grande como do chão ao céu.
-Ufa – suspiraram e voltaram a dormir.
Passaram dias e nuvens no céu lá em cima. Durante a Primavera saltaram e dançaram; nadaram e correram o Verão e na floresta, grande como do chão ao céu, nunca mais ouviu o uivo.
- Foi-se embora o lobo Elefante? - a mãe coelho queria saber.
- Está lá longe, não te preocupes.
O Verão parecia que ia ser para sempre até que, a meio da noite, ouviram o uivo de novo.
- Que medo...! - e, de novo, iam a sair para perguntar quando viram, no meio da floresta, o lobo.
Que fazes aqui? - perguntou o elefante
Venho fazer um aviso. - disse o lobo – Estão a começar a cair as folhas das árvores, perto do rio, do outro lado da floresta. Vai começar o Outono.
Mas ainda está tanto calor e as folhas estão verdes, temos o que comer por todo o lado. - o elefante não queria acreditar.
Mas é verdade o que te digo e devem começar a guardar para o Inverno. - e foi-se embora o lobo.
Os dias passaram depressa e o Outono apareceu mais depressa ainda. Na floresta as árvores já eram amarelas, castanhas e vermelhas. No Inverno ficou toda coberta de neve e ao rato e ao macaco faltava o jantar.
- Elefante! Precisamos de comer mas morremos se formos por aí, no meio da neve!
- Porque não pensaram nisso antes, enquanto era Verão?
- Não sabíamos que ia ser Inverno tão depressa! - chorava devagarinho o rato.
E o elefante lembrou-se: - O lobo avisou...
De todos, só o lobo conseguia andar depressa e sem se cansar, pela neve fria do Inverno. De todos, era o único que sabia andar de dia e de noite sem se perder. E foi por isso que o elefante lhe foi falar.
Dois dias depois, acordaram com um banquete no meio da floresta branca e fria. O lobo, parado e sem uivar, trouxera provisões para o resto do Inverno.
Primeiro parados e depois devagar, a coruja e o coelho, a gazela e o tigre, a cobra e o rato, o macaco e o crocodilo, saudaram o lobo pelo nome, agradecendo-lhe.
Desde esse Inverno que cada uivo que ouvem é um alivio e sorriem enquanto dormem, na floresta grande como do chão ao céu.
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experimental (nº de parágrafos = nº de letras primeiro nome; em cada um não usar a letra correspondente)
Publicado por Cristina Milho
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Na noite de seis de Fevereiro, morreu Antonino da Silva Trigueiro. Uma morte natural disse a autópsia. Uma morte de surpresa disse metade da vila. Uma morte assassinada disse a Lurdes.
No dia antes, Antonino passeava, saudável e com boa tez, pela alameda mais folgada da vila de Aguada de Baixo. Todos o saudavam – na tasca, na montra, na loja –, iam cães no seu encalço, felizes de um afago, enquanto ia a caminho da fazenda. Tinha a sua família, desde o bisavô, dezassete hectares de solo fecundo, cobiçado em Aguada de Baixo e em metade de Aguada de Cima.
A jorna era a mesma todo o ano: de manhã antes do sol, o percurso pela alameda central da terra, os acenos e as saudações, até ao terreno. Passava lá o resto do tempo até escurecer. Da terra, antes do sustento e em vez da fortuna, apanhava dores de costas, unhas escuras e pele queimada. Mas era aquele o seu lugar melhor. O lugar onde era um homem melhor.
Quando era hora de voltar, vinha pela alameda acima, com igual vontade. Vinha de volta para ela.
Lurdes sabia ficar invisível: era uma mulher pequenina, cabia em lugares que mais ninguém arriscava; ás vezes ficava sossegada, parada e sem som, só a ouvir e a ver. Ás vezes e as vezes que ela queria, desaparecia. Regressava no lusco-fusco, para receber o seu homem, com a sopa aquecida na mesa cheia. Viviam de sol em sol, sem sobressaltos e no meio de acenos e saudações.
A terra lavrada, de sol a sol, por aquele homem, nunca esteve à venda. Nunca o avô do avô, o avô ou ele, encontraram razão para a dar a troco de nada. Choveram, durante quase um século, propostas, umas honestas outras obscenas, para que se desamarrassem daquele pedaço de chão. Nem uma delas teve o sucesso que procurava.
Em todas as ofertas, a do Joaquim da Vereda era mais uma – a mais esmagadora, repetida, ameaçadora e vigarista. Todos os dias a saudação do Joaquim era a mesma à ida e à volta: é hoje que te desfazes do teu caixão? Se calhar matou-o; jamais se soube.
Secou o terreno depois que morreu em Fevereiro e sumiu, de vez e com ele, Lurdes.
No dia antes, Antonino passeava, saudável e com boa tez, pela alameda mais folgada da vila de Aguada de Baixo. Todos o saudavam – na tasca, na montra, na loja –, iam cães no seu encalço, felizes de um afago, enquanto ia a caminho da fazenda. Tinha a sua família, desde o bisavô, dezassete hectares de solo fecundo, cobiçado em Aguada de Baixo e em metade de Aguada de Cima.
A jorna era a mesma todo o ano: de manhã antes do sol, o percurso pela alameda central da terra, os acenos e as saudações, até ao terreno. Passava lá o resto do tempo até escurecer. Da terra, antes do sustento e em vez da fortuna, apanhava dores de costas, unhas escuras e pele queimada. Mas era aquele o seu lugar melhor. O lugar onde era um homem melhor.
Quando era hora de voltar, vinha pela alameda acima, com igual vontade. Vinha de volta para ela.
Lurdes sabia ficar invisível: era uma mulher pequenina, cabia em lugares que mais ninguém arriscava; ás vezes ficava sossegada, parada e sem som, só a ouvir e a ver. Ás vezes e as vezes que ela queria, desaparecia. Regressava no lusco-fusco, para receber o seu homem, com a sopa aquecida na mesa cheia. Viviam de sol em sol, sem sobressaltos e no meio de acenos e saudações.
A terra lavrada, de sol a sol, por aquele homem, nunca esteve à venda. Nunca o avô do avô, o avô ou ele, encontraram razão para a dar a troco de nada. Choveram, durante quase um século, propostas, umas honestas outras obscenas, para que se desamarrassem daquele pedaço de chão. Nem uma delas teve o sucesso que procurava.
Em todas as ofertas, a do Joaquim da Vereda era mais uma – a mais esmagadora, repetida, ameaçadora e vigarista. Todos os dias a saudação do Joaquim era a mesma à ida e à volta: é hoje que te desfazes do teu caixão? Se calhar matou-o; jamais se soube.
Secou o terreno depois que morreu em Fevereiro e sumiu, de vez e com ele, Lurdes.
De Bissau a Bafatá, demorámos dois dias em caminhos feitos
pela força do que sobre eles passou. À esquerda, verde. À direita, verde. Nunca
choveu e, no entanto, o meu humor era de mau tempo. A roupa colava-se-me ao
corpo. Sentia-me suada e suja. Uma vez, passei por cinco mulheres a transportar
água. Não me apeteceu parar para tirar fotografias. Só queria chegar para poder
voltar. Na manhã do terceiro dia, de partida para Gabu, os pneus do jipe foram
furados. Era uma emboscada.
Durante
vários minutos, estive com a cara espalmada contra a janela do jipe. Reparei no
embaciamento que cada expiração criava. O bandido puxou-me a cabeça para trás
pela nuca.
– Olha estes
cabelos tão bonitinhos.
Senti o frio
de uma lâmina encostada ao pescoço. Vi o reluzir do metal. Na boca, o mesmo
sabor a sangue de há 7 anos, no rio
Mara, Quénia, onde quase morri afogada. Trinco a língua quando fico nervosa.
– Sabe...
Articulava
cada som até à sua exaustão, como se eu fosse a sua professora de Português e
ele me quisesse impressionar.
– A minha
vontade hoje era foder uma branquinha como você.
E diminuiu a
distância entre mim e a lâmina, esfregando o sexo erecto na minha perna. Eu
observava o vermelho da terra e perguntava-me se era do meu sangue. Comparava o
verde aberto da vegetação e o verde seco das calças do homem, não percebendo
como um podia camuflar alguém no outro. As nuvens escuras, que minutos antes pairavam
no horizonte, pareciam querer cair inteiras sobre mim. Só pensava na parangona:
«Violada à chuva e encontrada morta na lama».
Maldisse o
minuto em que aceitei a reportagem no interior da Guiné-Bissau.
– Não te
preocupes com nada – reconfortou-me o meu chefe. – Vais com a equipa, todos
homens, gajos experientes. O jipe é do melhor, branquinho, todo luzente ainda,
super confortável.
– Mas,
João...
– Além
disso, é só uma reportagem sobre aldeias perdidas, tipo National Geographic, ‘tás
a ver? Ninguém se vai meter convosco, no way.
Filho da
puta.
Filhos da
puta.
Tema: Uma viagem
Viajar até ao fim do mundo... Na minha memória sempre registei Ushuaia como muito perto de viver a sensação de ir até ao fim do mundo...tão longe e tão só, lá em baixo, onde já não há ninguém...Dá-me uma perspectiva,uma ideia disso.Finisterra...quase se podia chamar assim
Parti de Buenos Aires, era inevitável. Cidade europeia, meia italiana, cheia de cores e de musicalidade: o abraço numa milonga para despedida e inspiração.
- A camionete parte daqui ?
- No lo entiendo...disse o viajante de mochila às costas.
-The bus for Ushuaia?
Agora percebeu...Yes, respondeu, mas num tom que não era inglês.
Bem há mais alguém..
Chega mais um casal, mas sem mochilas, devem ser argentinos, bagagem de sacos diversos..
O tempo estava cinzento, escuro ao longe. Iriamos ter vários dias de
percurso: levava alguna mantimentos, agasalho e água, o imprescindível.
O ruido do motor era variável, provocava-me uma inquietação intermitente: quando eu deixava de estar tão fascinada pelo sem fim da paisagem em todas as direcções e o meu espírito entrava de novo na camionete e voltava a ouvir aquele som roufenho. A chuva começou a cair com uma violência crescente mas a camionete com o seu ronco esquisito parecia não se ralar com isso e o motorista esse então assobiava de vez em quando... Nisto aparece à nossa frente um jeep parado na berma : empanado! Os ocupantes, que nem uns pintos, tinham o capot aberto e estavam com um ar preocupado. Nestas terras do fim do mundo não se pode passar sem falar: o motorsta interroga, -Que passa?..-No lo sé...
Salta fora: água,água, encharca logo, já são três a analisar...
SOS, cabo atado e segue o jeep atrelado à camionete que ronca e resfolega, mas é como um rinoceronte: forte e feio e sempre andando.
Os passageiros do jeep passaram para a camionete, arrastava-se o peso iamos mais devagar.
Passaram-se horas, e dias e noites, sempre o horizonte longe e a estrada sem fim, nunca fiz uma viagem tão desligada de tudo...Através da Sibéria havia de vez em quando uma casa, mesmo de madeira apodrecida, ou povoados pequenos a quebrar a pouca imaginação da paisagem. Aqui é muito mais difícil encontrar gente, então na última parte da viagem.
Quando chego ao fim, corpo bem amassado a desejar um chão qualquer onde estender o saco cama, embora haja casas e se fala uma lingua que até se entende, pensei: quanto me faltará para chegar mesmo ao fim do mundo? .
MJ Lobo
Viajar até ao fim do mundo... Na minha memória sempre registei Ushuaia como muito perto de viver a sensação de ir até ao fim do mundo...tão longe e tão só, lá em baixo, onde já não há ninguém...Dá-me uma perspectiva,uma ideia disso.Finisterra...quase se podia chamar assim
Parti de Buenos Aires, era inevitável. Cidade europeia, meia italiana, cheia de cores e de musicalidade: o abraço numa milonga para despedida e inspiração.
- A camionete parte daqui ?
- No lo entiendo...disse o viajante de mochila às costas.
-The bus for Ushuaia?
Agora percebeu...Yes, respondeu, mas num tom que não era inglês.
Bem há mais alguém..
Chega mais um casal, mas sem mochilas, devem ser argentinos, bagagem de sacos diversos..
O tempo estava cinzento, escuro ao longe. Iriamos ter vários dias de
percurso: levava alguna mantimentos, agasalho e água, o imprescindível.
O ruido do motor era variável, provocava-me uma inquietação intermitente: quando eu deixava de estar tão fascinada pelo sem fim da paisagem em todas as direcções e o meu espírito entrava de novo na camionete e voltava a ouvir aquele som roufenho. A chuva começou a cair com uma violência crescente mas a camionete com o seu ronco esquisito parecia não se ralar com isso e o motorista esse então assobiava de vez em quando... Nisto aparece à nossa frente um jeep parado na berma : empanado! Os ocupantes, que nem uns pintos, tinham o capot aberto e estavam com um ar preocupado. Nestas terras do fim do mundo não se pode passar sem falar: o motorsta interroga, -Que passa?..-No lo sé...
Salta fora: água,água, encharca logo, já são três a analisar...
SOS, cabo atado e segue o jeep atrelado à camionete que ronca e resfolega, mas é como um rinoceronte: forte e feio e sempre andando.
Os passageiros do jeep passaram para a camionete, arrastava-se o peso iamos mais devagar.
Passaram-se horas, e dias e noites, sempre o horizonte longe e a estrada sem fim, nunca fiz uma viagem tão desligada de tudo...Através da Sibéria havia de vez em quando uma casa, mesmo de madeira apodrecida, ou povoados pequenos a quebrar a pouca imaginação da paisagem. Aqui é muito mais difícil encontrar gente, então na última parte da viagem.
Quando chego ao fim, corpo bem amassado a desejar um chão qualquer onde estender o saco cama, embora haja casas e se fala uma lingua que até se entende, pensei: quanto me faltará para chegar mesmo ao fim do mundo? .
MJ Lobo
O CABELEIREIRO DOS CARECAS
Eh pá, conseguiste arranjar emprego?
É verdade... a pentear carecas...
Ahh?Tretas...
Sim, sim, não imaginas como eles gostam que se lhes aproveitem os poucos cabelos que têm ou se lhes trate da cabeça como se tivessem cabelos...Olha lá ..não tratas das mãos e dos pés sem terem cabelos? Porqué que não hás-de tratar da cabeça? Primeiro a massagem do couro cabeludo , mesmo que seja só couro, sem ser cabeludo, é estimulante para a circulação cerebral...Oh pá até aumenta a nossa inteligência, nunca ouviste dizer? Num bom cabeleireiro vai sempre uma boa massagem com a ponta dos dedos. Através dos cabelos a estimular a circulação...A gente continua a ter circulação debaixo da pele mesmo sem ter cabelos...Não pensaste nisso?
E quando os cabelos são poucochinhos aproveitá-los bem, a virá-los pra cima ou pra um lado só.. Tambem podes ajudar a dar um jeito no chinó ou peruca, isso são serviços acessórios, mas também dá...
Olha há muito mais carecas a quererem ser valorizados e serem atendidos como clientes exclusivos do que aquilo que tu julgas...Ser careca tambem dá estatuto...Tambem os que são rapados podem ser atendidos mas isso não é careca legítimo...Posso atender mas tem que esperar sem prioridade que isto ou são carecas com certificado ou se estão em regime transitório que é o mesmo que faz de conta não é cá a mesma coisa...Prontos , é assim e não há crise...
Escolhi ir durante a
monção.
Foi uma escolha se considerarmos que tudo o que fazemos é
uma escolha. A verdade é que aquela era a única altura em que
poderia ir; encaixaram os meus dias nos dias da viagem. Não quis nem
tentei saber mais nada e, de planeado, só levei a mochila. Daqui
para a frente a viagem seria feita dentro de um filho de pais que
nunca supos poderem procriar: motor e parte dianteira de um camião
de cimento soldado a um autocarro, adaptado a levar viveres, água
potável num tanque, ferramentas, mochilas, material de campismo: um
colosso em pneus.
A estrada começa de
manhã, sinuosa, estreita mas suficiente para dois veículos de
grande porte se cruzarem lado a lado, no limite do razoável, em
espaço e em velocidade. Demora-se a viagem em curvas, contracurvas,
desfiladeiros numa vertigem de verde e a ansiedade, minha, de ver
outro veiculo a aproximar-se em sentido contrário. Começa a chover
quando entramos na fronteira do Nepal com a India. Eramos 10 num
camião, a percorrer estradas de terra, lugares de casas baixas e de
uma divisão só, campos de verde até o horizonte, longe do que vem
desenhado no mapa. O camião tem um procedimento administrativo
diferente do nosso o que nos obriga a sair para a lama, pedras,
entulho e lixo até ao posto de controlo: um papel e um carimbo para
sair do Nepal. Mais à frente – gente que se acotovela, pedras e
entulho, uma sopa que sinto debaixo dos pés quase nus, limpos de vez
em quando pela chuva – novo posto de controlo: um papel e um
carimbo para entrar na India: uma mesa corrida com 7 funcionários,
numa espécie de alpendre e tenho de emprestar a minha caneta.
Utilizo a palavra controlo mas pareceu-me, a dada altura e porque não
faço barulho com os pés, porque a roupa que vestia não tinha muita
cor e era simples e porque a cor de pele e do cabelo podem ser tão
indianos como os que cá estão, que dei por mim a pensar que poderia
passar sem nenhuma formalidade.
- O que escrevo aqui?
- o meu inglês parece servir aqui, onde não se fala só com a voz.
Acena-me com a cabeça num gesto que não decifro – É necessário
escrever a morada? - não quero parecer ansiosa ou levantar a voz
mas se ele não me entende agora vou atrasar o carimbo de que
preciso no passaporte. Esbugalho os olhos e aponto com insistência
para a linha no formulário, alternadamente e numa tentativa de
completar a minha pergunta. O chocalhar de cabeça que fazem é tão
revelador como uma burka.
- O nome do hotel
serve. - neste canto do mundo não senti que as respostas fossem
dadas por simpatia ou cordialidade mas por uma tolerância a quem
aparece.
- É preciso mais
alguma coisa? - depressa temos os carimbos necessários e tentamos
sair dali.
- Vamos andando para a
frente. É preciso almoçar antes de continuarmos.
A quantidade de gente que
pássa na rua, em todos os sentidos e em todos os tipos de meios de
transporte, é inverosímel. Chego a temer pelos meus pés a dada
altura; sinto a poeira a consolidar-se na roupa, no cabelo e na pele
o que me obriga a olhar apenas o chão para ver por onde ando e a
encostar-me, rente, aos edifícios. Não há, em lugar nenhum, um
único sinal de trânsito e o alcatrão determina onde é a estrada
porque o resto são pedras, areia e lixo até ás portas dos
edificios. O camião vai demorar mais um pouco por isso escolhemos um
sitio para almoçar. Temos de deixar de pensar – se foi lavado o
prato e o copo, de onde vieram os talheres, como me vou sentir se
comer o pão amassado e frito naquele momento, ao pé de uma porta
aberta, com umas mãos escuras, de pele e de pó.
Ainda sinto a distância
de cá chegar. Ainda me sinto longe, tenho de me esperar chegar, como
no Toubkal, onde só cheguei depois de descer a primeira montanha.
Diziam-me, uns dias depois, que a alma demora um pouco mais a chegar
ao destino onde a cabeça chega agarrada ao corpo – talvez seja
isso que sinto. A paisagem, a comida e a língua com que tenho de me
expressar sempre, é contrária a mim. Senti-me num esforço em fazer
coincidir as palavras com o que queria dizer e acabei por dizer menos
e sentir mais.
De tudo, sobraram
fotografias e sensações que já pouco coincidem com o que
aconteceu.
Paris, 27 de Março de 1924
Encontrei-te numa manhã de chuva, no Panteão de Paris,
enquanto me perdia nas explicações do guia.
- Le pendule de Foucault est une expérience....
De cabelo apanhado, óculos pretos de massa e uma écharpe a
estrangular-te, só podias esconder um mar de palavras.
Depois da visita, convidei-te por gestos para ir ao café.
Enquanto bebíamos chocolate quente, éramos só silêncio, tu em francês e eu em
português, cada uma concentrada na sua caneca. Mas eu estava em ti.
Quando ficaste com um pedaço de nata no canto da boca,
limpei-o com o polegar e provei-o. Sabias a meia gota de chuva e eu queria
provar o resto. Queria desenrolar-te da écharpe, tirar-te os óculos, soltar-te
o cabelo preto que desliza até ao meio das costas. Queria beijar-te na nuca e
sentir os ossos salientes da clavícula, a única respiração rectilínea que existe em
ti. Descer e descobrir o resto da tua geometria, os teus seios, a tua barriga
quente, o teu sexo, as tuas pernas e os teus pés até ficar tonta e tudo voltar
ao início e os teus pés começarem na cabeça e nos olhos castanhos. E, assim, em
círculo, o dia todo. Sempre.
- L'addition s'il vous plait.
«Certa manhã, Lisboa acorda surpreendida com a presença de
estranhos monólitos azuis espalhados pela cidade. Ninguém sabe de onde vieram, quem os trouxe e os colocou, nem porquê. São dezenas. As
televisões abrem com directos frenéticos e entrevistas às primeiras testemunhas
(noctívagos e homens do lixo). Nas redes sociais especula-se sobre o
significado daquilo. Os ufologistas esfregam as mãos. Há quem faça mapas
tentando identificar padrões. Pululam as teorias da conspiração. Entretanto, as
autoridades isolaram os "achados".
Os blocos azuis haviam transformado o mapa turístico de
Lisboa, atraindo multidões às ruas estreitas do Martim Moniz e esvaziando o
Chiado e a Rua Augusta. Ainda assim, se alguns habitantes se fecharam
preventivamente em casa, se tantos outros se entregaram a suposições febris,
muitos outros houve que continuaram com as suas vidas, evitando apenas passar
nos cruzamentos com aquilo. Era este o caso da família Ferreira.
Não se pode dizer, no entanto, que a vida continua quando um
filho deixa de falar. Aconteceu num sábado à tarde, quando a mãe foi pedir
fósforos à vizinha e deixou a Matilde sozinha em casa. Quando regressou, a
pequena estava sentada no chão, com o olhar perdido na parede branca. Ficou
vários dias ali e, com o tempo, os seus olhos castanhos foram ficando mais
claros, cada vez mais claros, até se tornarem azuis cristalinos da cor do mar em
dias de céu varrido e, depois, esbugalhados como os olhos dos peixes na lota.
A decisão dos pais foi unânime e, numa noite em que o fumo dum cigarro
se confundiria com o próprio nevoeiro, deixaram-na ao lado do bloco da Praça do
Chile. No carro, sentiram o solo estremecer. Onde Matilde estava sentada, uma
espiral de arco-íris irrompeu do centro da Terra e, atingindo o outro lado do
Universo, transportou consigo a menina para um mundo de gnomos e seres
esvoaçantes e com olhos de peixe. O ar confundia-se com a água, a água com a
terra, a terra com o fogo e tanto se podia dormir numa fogueira como num bloco
de gelo. Na língua daquele mundo, não existia tempo – presente, passado ou
futuro – nem distinção entre andar, nadar ou voar se para todos estes verbos
se dizia a palavra ujig, que significa «deslizar descobrindo».
b
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1 pássaro,
1 referência meteorológica,
3 tempos cronológicos,
acontecimento histórico real,
descrição de paisagem,
diálogo em discurso directo
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Um grito de dentro do verde. A monotonia da cor, em variações de capim, suspirava debaixo dos silvos de vento Por cima, só o azul metálico do céu. E, de novo, um grito a fazer estremecer o chão, com a dor toda que têm mil feridas em pele qu
eimada, parecia não ir acabar. Assustaram-se os mutuns e os socós, que sairam em voo picado. Escureceu o céu, para dar inicio ao aguaceiro que demoraria até à noite. Um lamento de dentro do verde anunciou Abaé.O nome deu-lhe sua mãe, depois de sacudir o sangue das pernas, para que todos soubessem que era mais um.
Só conseguiria chegar à aldeia no dia seguinte por isso tinha de começar a andar agora. Podia caminhar o que quisesse, no tempo que fosse preciso – aquela terra fora considerada, em juizo e tribunal, a sua casa e não teria caminhar outro chão diferente daquele: o tekoha guasu, o chão da sua aldeia.
Saiu do capim e faltava-lhe ainda uma noite e algumas horas da manhã seguinte para chegar. Abaé escondia-se, de cara no peito da mãe, dormente.
- Está feito? - o seu irmão tinha vindo ao seu encontro
- Está. Podemos voltar agora.
Caminhavam agora os dois, em silêncio, interrompido a espaços pela criança e as absolutas necessidades de comer, dar de comer e dormir.
- Morreu Nadi – o seu irmão despejou a noticia com quem tosse um resto de comida da boca. Quase parou quando ouviu a noticia: a mãe de tantos, a sua mãe, morreu.
- Quando foi isso?
- Ontem, depois da lua.
Continuavam a andar, lado a lado, não podiam parar agora. Araci, segurou com a mesma força de antes Abaé contra o peito. Continuou a caminhar sem deixar de olhar a risca que dividia a terra do céu, deixou que saissem as lágrimas e, acho que ainda hoje chora um pouco quando olha o fio do horizonte.
Só conseguiria chegar à aldeia no dia seguinte por isso tinha de começar a andar agora. Podia caminhar o que quisesse, no tempo que fosse preciso – aquela terra fora considerada, em juizo e tribunal, a sua casa e não teria caminhar outro chão diferente daquele: o tekoha guasu, o chão da sua aldeia.
Saiu do capim e faltava-lhe ainda uma noite e algumas horas da manhã seguinte para chegar. Abaé escondia-se, de cara no peito da mãe, dormente.
- Está feito? - o seu irmão tinha vindo ao seu encontro
- Está. Podemos voltar agora.
Caminhavam agora os dois, em silêncio, interrompido a espaços pela criança e as absolutas necessidades de comer, dar de comer e dormir.
- Morreu Nadi – o seu irmão despejou a noticia com quem tosse um resto de comida da boca. Quase parou quando ouviu a noticia: a mãe de tantos, a sua mãe, morreu.
- Quando foi isso?
- Ontem, depois da lua.
Continuavam a andar, lado a lado, não podiam parar agora. Araci, segurou com a mesma força de antes Abaé contra o peito. Continuou a caminhar sem deixar de olhar a risca que dividia a terra do céu, deixou que saissem as lágrimas e, acho que ainda hoje chora um pouco quando olha o fio do horizonte.
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